(A) PARANOIA
Sara Neves

O espelho existe, o espelho reflete e, ainda, o espelho revela. Revela tanto acerca de quem o encara como acerca de si mesmo. O espelho faz com que a verdade, a ambiguidade e a fragmentação, coexistam num ambiente manipulado, no qual não podemos confiar. Depois de se reencontrar, o espectador passa de um estado de conforto para uma sensação de desconhecido. O espelho deixa de ser um objeto e passa a representar a heterotopia, nas palavras de Foucault, “uma projeção ilusória que, em si mesma, consegue projetar duas realidades num mesmo espaço de tempo, desencadeando uma simulação/simulacro em tempo real”.

Agora, o espelho não reflete nada. O espectador experiencia um universo bi-lateral: conhece o reflexo que vê mas, simultaneamente, é envolto por uma sensação de paranóia por, gradualmente, deixar de se reconhecer a si próprio. Quanto mais tempo passa em confronto com o seu reflexo, menos a palavra reflexo faz sentido. O reflexo deixa de replicar a realidade e adiciona o desconhecido ao que já existia previamente. O que vemos no reflexo torna-se irreconhecível e infinito.