O MAR DE CORAL - PATTI SMITH
Beatriz Neto

Em O Mar de Coral, Patti Smith honra a memória do seu companheiro de armas, Robert Mapplethorpe – uma história metafórica e onírica de transformação, construída através das memórias da autora: de jovem artista a fotógrafo consagrado, dos anos que viveu com SIDA até à sua morte.

Nesta reedição, retiraram-se as imagens associadas a Smith, elemento dominante na generalidade das edições. A intenção era que a obra vivesse por si mesma e que o seu texto poético ganhasse uma nova dimensão. Deste modo, um curto livro de poesia em prosa transformou-se num livro denso, com menos texto por página, tornando a leitura mais demorada. O processo de leitura torna-se num ato performativo: ao agir sobre a velocidade do leitor, há mais tempo para contemplar atentamente as palavras de Patti Smith. As Seascapes de Hiroshi Sugimoto procuram complementar as palavras da autora, através da sua serenidade e densidade, bem como do seu forte caráter contemplativo. A viagem marítima do Passageiro M em direção às Ilhas Salomão, a linha do horizonte que se desvanece ao longo da história, são aqui entendidas como uma metáfora da vida em direção à morte.

O Mar de Coral é um último elogio a Robert Mapplethorpe, pela sua determinação de viver, que nunca pôde ser contida nem mesmo pela morte. Para guardar a memória de Mapplethorpe, prescinde-se da capa e opta-se por colocar o miolo do livro numa caixa – a caixa de memórias do Passageiro M. Ao abri-la, mergulhamos numa experiência pessoal de luto, amor e dor, vida e morte, contemplando e revivendo a sua jornada.