ESPAÇO PÚBLICO
Ana Lua Caiano

No Dicionário dos irmãos Grimm, “criar espaço” significa “arrumar”. Desde sempre, para criar civilizações e habitações, o Homem necessitava de abrir espaço no mato ou na floresta, por outras palavras, tinha que arrumar o espaço. Assim, a noção do espaço está intrinsecamente ligada à ideia de organização.

A criação ou modificação de uma cidade (das suas ruas, dos seus edifícios ou praças) é também uma questão de arrumação. Mediante necessidades como o crescimento populacional, a degradação da própria cidade, a alteração dos seus fluxos, o espaço é modificado, “re-arrumado”. Isto pode levar a que, num espaço de cinquenta anos, aquele que pode nortear uma vida adulta, uma cidade se transforme completamente – no limite, a cidade pode transformar-se noutra cidade. Com o envelhecimento dos edifícios, a modificação da sua função, a mudança da função das ruas, do seu desenho, as alterações motivadas por desastres, por novos desenhos urbanísticos mais ou menos radicais, os espaços de uma cidade, que julgávamos conhecer, aos poucos são substituídos por outras coisas. A cidade transforma-se.

ESPAÇO PÚBLICO parte destas constatações e extrapola um cenário fictício onde sujeitos imortais assistiriam à degradação e substituição da cidade de forma infinita e cíclica. Com os humanos como constantes e a cidades e os seus objectos como entidades efémeras, as pessoas estariam constantemente a assistir à renovação das cidades. Lugares familiares ou aos quais estavam ligados emocionalmente estariam em constante transformação. O desaparecimento de um edifício, de um espaço público ou até mesmo de uma cidade inteira causaria uma imensa sensação de perda e teria um grande impacto na vida dos cidadãos, marcando o início de uma nova etapa nas suas vidas.