NÃO SEI, MAS NÃO É O TEMPO
Carlos Trabulo

«In my beginning is my end. In succession
Houses rise and fall, crumble, are extended,
Are removed, destroyed, restored, or in their place
Is an open field, or a factory, or a by-pass.
Old stone to new building, old timber to new fires,
Old fires to ashes, and ashes to the earth
Which is already flesh, fur and faeces,
Bone of man and beast, cornstalk and leaf.
Houses live and die: there is a time for building
And a time for living and for generation
And a time for the wind to break the loosened pane
And to shake the wainscot where the field-mouse trots
And to shake the tattered arras woven with a silent motto.»
T. S. Eliot (1943), Four Quartets

O turismo cresce, e com ele a curiosidade em conhecer o que aconteceu e o que acontece. Em parelelo, a expansão dos interesses imobiliários. Locais antes habitados são deixados, algumas vezes ao relento, e crescem, no seu lugar, como ervas daninhas, hotéis, alojamentos locais, Airbnbs e apartamentos de luxo – meros locais de passagem.

Utilizando o flash, capturaram-se, durante a noite, edifícios históricos da Baixa lisboeta, durante o processo de serem desconstruídos, transformados e delapidados – estáticos, mas diante de uma promessa de mudança. O silêncio dos trabalhadores, que voltarão ao amanhecer, marca um período límbico entre o que foram estes locais, o que ainda não são e o que serão. Entre o passado do lioz e o ferro industrial do futuro, cria-se então uma narrativa em que as histórias são rasuradas, não enquanto resultado do tempo, de uma mudança expectável ou desejada, mas por puros interesses económicos e corporativos.